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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Tremor de terra, continuação

25.07.15 | Maria Flor

Após ter sentido aquele estremecimento da cama, ficou pensativa por alguns momentos, recuou no tempo e nas memórias, e pela sua mente passaram imagens de outra época em que o estremecimento foi muito maior e que, o seu pai, um homem no auge da idade, cheio de vigor e energia se levantou da cama no meio da escuridão da noite, o candeeiro a petróleo estava apagado e ele, meio atrapalhado, não encontrando a porta, andando às apalpadelas ia chamamdo pelos seus filhos que dormiam tranquilamente em colchões de carapelas, alheios ao barulho ensurdecedor que se fez ouvir. Acordou-os, mandou-os sair da cama e irem para a rua, estava a acontecer algo assustador, era um sismo forte de magnitude 8 na escala de Richter que durou um minuto. As loiças começaram a cair dos armários o chão fugia debaixo dos pés e quando chegaram à rua onde, todos os vizinhos em pânico, de camisas de noite, pijamas e cuecas, já se encontravam a comentar o sucedido. Algumas chaminés cairam, casas sofreram rachas significativas mas na sua aldeia não tem memória que alguém tenha morrido ou sofrido ferimentos. O receio de voltar á cama era muito, não fosse acontecer alguma réplica maior e deitar a casa abaixo. Para nós, crianças, aquilo foi uma coisa engraçada, porque não aconteceu tragédia nenhuma e foi algo diferente e uma novidade, já que nunca acontecia nada que quebrasse a rotina diária a que estavamos habituados. A nossa ingenuidade de miúdos não nos permitia alcançar a dimensão do que poderia ter acontecido. Este sismo aconteceu em 1969 e foi o maior sentido em Portugal após o terramoto de 1755 que arrasou Lisboa.

 

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