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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Dia de todos os santos

Era cedo ainda, mal amanhecera e já Alice (nome fictício) se levantara da cama, tinha um propósito para aquele dia. Iria comprar flores e rumaria ao cemitério, ali morava há muitos anos aquele que tanto amara. Alice nunca se esquecia dele, tinham vivido momentos inesquecíveis, tinham tido uma vida a dois, tinham sido felizes e apaixonados, nunca conseguira se conformar com aquela perda.

Hoje, Dia de Todos os Santos, subiria a calçada que a levaria àquele portão de ferro, o mesmo portão que um dia, ainda muito jovem transpôs para acompanhar uma última vez o seu amor, o único amor da sua vida. Iria percorrer as ruas ladeadas de um lado e outro pelas últimas moradas de tantas e tantas pessoas que já vira partir. Sente-se nostálgica, fica sempre assim quando visita aquele lugar. Saudades e uma mistura de sentimentos a invade, mas sente tranquilidade ali.

Sobe a rua e vira à esquerda, percorre mais uma rua, o seu destino encontra-se um pouco mais à frente, lá está o lugar que procura, uma pedra branca, um coração à cabeceira, uma flor ao lado numa pequena jarra e uma frase, uma frase muito linda que Alice tecera naquela ocasião, uma frase que dizia tudo o que lhe ia no coração.

Alice lê mais uma vez aquela frase que sabe de cor, olha a fotografia já esbatida pelo tempo e recorda, recorda tantas coisas, imagina a sua vida se nada daquilo tivesse acontecido, fecha os olhos e por breves momentos pensa que ainda é tudo um sonho, mas um sonho não dura tanto tempo, por isso abre os olhos e acorda para a sua realidade, e a sua realidade é uma vida que continua sempre sem ele.... mas continua com os seu lindos frutos!

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Pão por Deus 2017

Rápidamente passam os anos, chegamos mais uma vez a esta data tão apreciada pelas crianças. O dia do "Pão por Deus" celebrado todos os anos a 1 de Novembro , feriado e dia santo, denominado o dia de Todos os os Santos, é também o dia em que as pessoas rumam ao cemitério a limpar e a compôr as últimas moradas dos seus entes queridos.

Mas, falava eu do dia de "Pão por Deus", este dia em que as crianças saem à rua, normalmente em grupo, por vezes acompanhados por alguém adulto, com os seus saquinhos coloridos e chegam-se à porta das pessoas e pedem o dito "Pão por Deus".

Confesso que faço sempre por estar em casa nesta manhã, pois me dá um prazer enorme participar desta festa das crianças, depressa me vem à mente uma época longínqua (mas não tanto, porque o tempo passa depressa demais) em que eu também fazia isso, e era algo que apreciava muito, não só pelo convívio com os outros mas também porque naquela época as  oportunidades de comer goluseimas eram muito raras.

Esta é uma tradiçao que remonta a épocas muito antigas, li em algum sítio que terá começado após o terramoto de 1755, dia em a terra tremeu e que atingiu particularmente o litoral português e o Algarve, destruindo a cidade de Lisboa. A fome e a miséria eram muito fortes e as crianças com necessidades extremas começaram a ir pedir à porta das pessoas o Pão por Deus para mitigarem a fome que as atingia.

A tradição mantém- se até aos nossos dias, mas, felizmente agora com um sentido diferente. Actualmente é um dia de festa para as crianças.

Deixo aqui a imagem do que tenho preparado para dar as todas as crianças que à minha porta vierem ter, e todas serão bem vindas!

 

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Há Pão por Deus

Esta é a tradição mais bonita que existe. É com muito carinho que preparo os saquinhos que vou distribuir esta manhã pelos meninos e meninas que há minha porta virão bater "há pão por Deus" é a frase que se vai ouvir. Enquanto distribuo os saquinhos é como se eu própria também andasse de porta em porta como fazia quando era uma menina pequena. Que dia tão feliz era aquele, as nossas mães costuravam de propósito os sacos, levávamos sempre dois sacos, havia coisas que não se deviam misturar. Iamos em grupos, por vezes grandes grupos, a minha aldeia tinha muitas crianças, a alegria bailava nas ruas, nas portas e nas casas.

Hoje é um pouco, mas não muito diferente, apenas algumas nuances de modernidade se fazem notar, mas o que importa mesmo é que a tradição não se perca, as crianças merecem as tradições bonitas, elas são o melhor que o mundo tem. Todos um dia já o fomos e sabemos como é bom ser criança!

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 Aqui vos mostro a minha cesta com os saquinhos que preparei com carinho para os meninos e meninas que à minha porta virão bater com a linda frasse "Há Pão por Deus"

Tradição ilegal CHHAUPADI

Não são raras as vezes que fico impressionada com as coisas que leio, vivemos aqui no nosso mundinho neste "país á beira mar plantado" e esquecemo-nos no que se passa por esse mundo. Assim é que quando lemos coisas como esta  Aqui, fiquemos impressionadas como pode haver estas culturas que tanto maltratam e descreminam as mulheres. Como é possível que uma coisa tão natural, tão feminina e intima, possa ser a causa de tornar impura uma mulher perante a sociedade.

 

Ao ler coisas deste gênero, levanto as minhas mãos e agradeço ao "Mais Alto" ter nascido neste país que embora sofra altos e baixos como qualquer país, com as suas deficiências e atropelos, tem uma cultura que protege o seu povo. Embora haja descrimações e muita violência, comparado com o que ouvimos todos os dias no que se passa em outros países mesmo dito "civilizados e desenvolvidos", estamos num "céu"

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Estas restrições são baseadas numa tradição religiosa secular apelidada por chhaupadi, que em 2006 o Supremo Tribunal do Nepal declarou ser ilegal. Contudo, em zonas remotas como Marku, a tradição continua bem viva. Nem todas as mulheres têm uma “toca menstrual” para se enfiarem nestes dias, portanto às vezes partilham uma. Chegam a ser cinco, todas encolhidas para caberem.Nenhuma gosta daquele ritual, mas nenhuma algum dia ousou recusar-se a fazê-lo. Mesmo sabendo que existem casos reais de mulheres mortas pelo frio e pelos ataques de animais, ou violadas durante estes dias de isolamento. É assim que supostamente os deuses mandam fazer e a falta de formação leva-as a nem sequer questionarem porquê.

Dia de espiga - este ano muito molhado

Hoje é feriado municipal em alguns concelhos do país, celebra-se o "dia da espiga" que ocorre quarenta dias após a Páscoa.

Quando era ainda menina, costumava ir em grupo para o campo com outras crianças da minha idade, colhiamos flores amarelas, brancas, papoilas, um raminho de oliveira, espiga de trigo e também outros tipos de espigas ou flores que achavamos bonitas e podiam enfeitar os nossos ramos de espiga. Compunhamos assim um bonito ramo que traziamos para casa e penduravamos num determinado sítio de forma a poder ficar até ao próximo ano.

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 Felizes percorriamos grandes distãncias por caminhos tortos, outrora muito usados pelos burros. Carregados, transportavam das hortas e fazendas, os produtos que os seus donos produziam.

 

Esta era uma tarde de excelência passada com muita brincadeira, risadas e também faziamos jogos. Iamos até um sitio onde passava um pequeno rio. Ali, havia uma azenha antiga e para nosso contentamento demorávamos tempo a explorá-la e a tentar perceber como funcionava aquela engenhoca. O sítio era lindo, a água corria transparente se não tivesse havido chuva, alheia ao que se passava em seu redor, sentávamo-nos ali, à beira do rio e atirávamos pedras para poder ver a água saltitar, era ladeado por altas árvores e tudo em seu redor era vegetação verde de uma frescura entonteante, era um local de sonho. Para nós, crianças era um local de sonho para brincar e fazer os nossos jogos. Só vinhamos aqui no dia da espiga.

 

Durante o percurso que faziamos até ao rio iamos apanhando a nossa espiga, tinhamos que colher além das flores amarelas e brancas e as outras que serviam apenas para dar mais alegria ao ramo, era essencial que encontássemos:

 

A espiga de trigo, essa espiga representava o pão - o desejo para que nunca faltasse comida.

 

Raminho de oliveira - significa "Paz e Luz", a pomba da paz trazia no bico um raminho de oliveira e antigamente as pessoas davam luz á noite com lamparinas de azeite.

 

As flores  - a cor das flores simboliza a alegria,

 

Os malmequeres - significam riqueza,

 

As papoilas - representam o amor e vida,

 

Alecrim - transmite saúde e força.

 

O sol já quase se punha no horizonte quando regressávamos. Tinha sido um dia para ficar na memória, para um dia contar aos filhos como era "apanhar a espiga" nos anos sesseta/setenta. Faziamos o caminho de regresso pelo mesmo caminho de ida ou por outro carreiro qualquer, eram dias que não cabiam em um só dia, era felicidade espelhada em cada rosto, era a natureza em todo o seu explendor vista pelos olhos das crianças! 

 

 

 

 

 

 

 

Há pão por Deus

Os saquinhos estavam dentro de uma taça grande em cima da mesa, neles estavam rebuçados, gomas e linguas de gato. O céu estava muito cinzento e a chuva caía em gotas grossas, escorriam pelas varandas e pátios e desaguavam nas caixas pluviais, as crianças não apareciam e os saquinhos ali estavam imóveis à espera.

 

No dia anterior tinha feito uma corrida contra o tempo para comprar e preparar com carinho aquilo que pretendia presentar as crianças neste dia tão especial para elas e para cumprir a tradição.

 

Noutro tempo, quando era criança, esperava por este dia com uma ansiedade algo desmedida. Era com alegria que saía para a rua em grupo com os irmãos e irmãs e também as outras crianças da rua, percorriam durante cerca de duas horas as ruas da aldeia com dois sacos, um de plástico para as pevides e tremoços e outro de pano que a sua mãe confecionava especialmente para o efeito para as restantes coisas que as pessoas iam dando, os sacos vinham cheios, á tarde entretinha-se a separar as goluzeimas que iria comer durante toda a semana. 

 

Os saquinhos continuam á espera.

 

A chuva vai abrandando, a hora vai avançando e alguém toca a campainha, abre a porta e aí está o primeiro grupo de crianças, são oito, cada uma com o seu saco e o seu chapéu de chuva aberto, "há pão por Deus" pronunciam, a senhora responde que sim e que esperem um pouco, volta para dentro de casa e regressa com a taça grande, os saquinhos saltam da taça grande para os sacos das crianças "que bom, gomas" esclama uma, e  uma a uma vão abrindo os sacos. Eles educadamente agradecem e seguem para outra porta. 

 

Os outros saquinhos vão continuar à espera de resgate.

 

O mais divertido não eram própriamente as goluzeimas (embora fossem importantes porque na época não se tinha acesso a coisas doces com facilidade) era sim o convivio, o caminhar, o bater às portas e dizer "há pão por Deus" e vinham as senhoras distribuir o que tinham para dar. No entanto havia sempre alguém que fazia de propósito para não estar em casa nesse dia.

 

A chuva já parou, a campainha volta a tocar e mais um grupo aparece, os chapéus de chuva estão fechados, a taça grande volta a sair à rua e os saquinhos saltam para os sacos das crianças, esta cena se repete para mais alguns grupos destemidos da chuva que não quizeram deixar cair a tradição.