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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Tenho que telefonar a alguém

A seguir às notícias do jornal da noite, mudava de canal para a net flix, procurava um filme, de preferência histórico e longa duração para estar absorvida até à hora de dormir. Um som vindo do telefone avisa que alguém está a tentar entrar em linha, coloca o filme em modo de pausa e olha o mostrador, vê o nome, a primeira impressão que tem é - não me apetece falar com ele, estou a meio de um filme, mas logo a seguir muda de pensamento - é melhor atender - pode estar a precisar de falar com alguém, sabe que ele está sozinho.... atende.

Antes da situação pandemica que atravessamos, ele saía todos os fim de semana para se divertir os com amigos e amigas, o seu trabalho é duro e necessita daquele escape para bem da sua saúde mental. Agora, isso não é possível e fica por casa, não tem onde ir, vive sozinho dentro daquela casa enorme, composta por grandes divisões vazias e frias, vazias de tudo, os poucos móveis que a compõem parecem canoas num oceano, as janelas são despidas e o chão já viu tapetes e carpetes... pode não estar a ser fácil suportar a falta de convívio, a solidão que se estende!

Viver só tem o seu lado bom e o seu lado menos bom também. O nosso estado de espírito muito contribui para sentir as diferenças, as vantagens e desvantagens. Viver só nem sempre é uma opção, quase nunca é uma opção, as várias circunstãncias da vida empurram uns e outros das mais diversas formas para um viver só dentro de uma casa. Há pessoas que lidam muito bem com isso mas outras não

Atende:

- do outro lado: olá, está tudo bem contigo?

- sim, está tudo bem comigo e com a família graças a Deus, e tu, estás bem?

Assim começou a conversa: sabes, estava mesmo a precisar de falar com alguém e escolhi-te porque sei que me sabes ouvir, me sabes escutar, estava a ficar deprimido aqui em casa sozinho....e gosto de conversar contigo.... . Ali ficamos a conversar e a rir de tudo e nada durante um pedaço de tempo... criamos um momento de descontracção que acabou por ser bom para os dois. O filme continuava em espera.

O filme pode esperar, amanhã ele continua lá, enquanto que, para esta pessoa o facto de ter tido alguém para conversar tenha sido a coisa que mais luz tenha dado ao seu dia!

A pandemia, o confinamento, a solidão são uma factura muito alta que todos estamos a pagar!

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O meu olhar sobre#2#rosto de um idoso

De olhar cansado pelos anos onde já não há lugar para as letras, a visão a falhar saída de uns olhos quase escondidos pelo sulco das rugas que os envolvem, existe uma serenidade que não foi roubada pelos anos de trabalho árduo. Um rosto outrora, robusto e queimado pelo sol, pelo frio e chuva encontra-se agora claro e flácido envolto numa rala cabeleira branca, também sinal de uma juventude que há muito o abandonou.

Segura a bengala que o ampara quando dá os seus pequenos passeios, porque as forças pujantes de outrora escasseiam agora mas, não obstante as dificuldades ele obriga-se a caminhar um pouco todos os dias, segue as recomendações do médico, diz que é bom para o coração e para os movimentos dos ossos e músculos. Os seus passeios são curtos mas o suficiente para que não perca mobilidade.

Sente uma saudade atroz do tempo em que trabalhava de sol a sol, de mexer na terra, da faina do tractor, de arrancar da terra o produto da sementeira, sente saudade de sentir a roupa molhada pela chuva, e do calor abrasador do verão, do cantar dos pássaros e dos passos que o levavam às terras.

Aos domingos ia à missa, nunca falhava antes da pandemia, gosta de lá ir, toda a sua vida foi, já não sabe se vai por devoção ou por hábito, é uma coisa que faz parte da sua vida. Agora não há, encara isso com alguma tristeza, diz o neto que se alguma vez voltar a ir tem que levar uma máscara, acha isso uma coisa estranha mas já se habituou a ver toda a gente de máscara...

Poucas são as coisas que o prendem à vida, já viveu muito, diz. A única coisa que lhe dá uma felicidade imensa, a mais importante do seu dia, é a visita dos seus filhos, conta os dias e as horas que faltam para eles chegarem, sabe exactamente quem vai  naquele dia e conta as mesmas histórias vezes sem conta, pequenos episódios da sua longa vida e lendas que ouviu contar. Agradece todos os dia a Deus pela sua vida e pede pela saúde da sua família.

Nota-se no seu rosto e nas suas mãos as marcas de uma vida árdua mas também de muito amor, e os seus olhos transmitem em cada momento a serenidade que o seu coração contém!

Carrega nos ombros o peso dos anos e a solidão dos dias!

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O meu olhar sobre:#1#Feira da Malveira

Feira da Malveira em tempos de pandemia!

Coloco uma máscara azul bebé, igual a milhares das que se vêem por aí, pego no meu carrinho das compras que comprei em outros tempos nesta feira e dirijo-me ao recinto da feira. À entrada estão duas forças de segurança para garantir que se cumpram todas as regras de segurança no espaço. Os meus olhos fixam o paisagem que se abre à minha frente e, o que antes era uma área repleta de tendas, bancadas e gente, agora apresenta- com menos de um terço da sua capacidade. Apenas se vendem produtos alimentares e plantas. 

Num curto espaço de tempo e em liberdade de movimentos percorro aquele espaço, procuro aquilo que preciso, passo por uma senhora que tem poucos produtos mas tem uns nabos bonitos que me chamam a atenção e pergunto o preço, um euro e setenta e cinco cêntimos um molho de sete nabos, não hesito, compro, no supermercado custa sessenta cêntimos cada unidade. Noutra bancada compro uns enchidos e noutra os legumes que me fizeram ir à feira, grelos, nabiças, brócolos, couve, alho francês, alface, cebolas, coentros, laranjas e cenouras, o meu carrinho ficou cheio. Um dos motivos que me levam à feira é comprar cenouras com rama, não havia cenouras com rama, disse o feirante que o frio e o gelo queimou tudo. Trouxe cenouras sem rama! 

Estabeleço conversa com os proprietários desta bancada, de um modo desolado desabafam que quase não vale a pena ir à feira, os clientes são muito poucos, dizem que esta é uma feira de gente de mais idade e esses deixaram de lá ir.

Um sentimento de tristeza e desolação emerge dos olhares de quem vende, mas também de quem compra. Para muitos a feira também servia de motivo para simplesmente dar um passeio, isso agora não é possível, compra-se o que se tem de comprar e vai-se embora, as caras das pessoas nem as vemos, dois dedos de conversa com alguém conhecido não se dá, até porque não encontramos lá essas pessoas.  

Gosto de comprar produtos frescos nesta feira, gosto de percorrer as bancadas e escolher a que tem quase todos os produtos que preciso para aí  comprar, além de ser mais barato que nos supermercados, circulo em espaço aberto com o devido distanciamento e sinto segurança. Além disso, ainda ajudo estas pessoas nesta fase tão complicada de todas as vidas, que fazem disto o seu modo de vida e por conseguinte o seu ganha-pão.

Em cada bancada vejo um silêncio entorpecido, onde antes reinava a confusão e o barulho, vejo rostos pensativos e olhos vagos, vejo a espera do cliente que não vem, vejo a mercadoria em cima da bancada por despachar, vejo em cada rosto incerteza e uma resignação disfarçada....

Levanto os olhos na mesma direcção de outros olhares e observo nuvens muito negras, vem aí uma chuvada valente dizem algumas vozes, os poucos clientes que ainda circulam no espaço da feira apressam-se a dirigir-se à saída, querem chegar aos carros antes da chuva, eu faço o mesmo, as compras estão feitas. É hora de regressar a casa, ao confinamento das minhas paredes, ao conforto da minha casa e ao desabafo das letras.

No regresso pouco transito encontrei, poucas pessoas circulam nas ruas, sente-se uma nostalgia e uma solidão solidária no ar, um compasso de espera...! 

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(Imagem tirada da net)

Esta  a habitual Feira da Malveira em tempos anteriores à pandemia

Agosto Sol e Chuva

O dia amanheceu com chuviscos, mas já sabia que ia ser assim, com a previsão meteorológica no telemóvel a todo o momento, e eles raramente falham, sabemos sempre o que o tempo vai fazer nas horas seguintes. Assim, melhor esquecer a praia e arranjar outro modo de ocupar o tempo neste mês de Agosto, amanhã estará céu azul e sol quente! viver perto da praia tem estas vantagens! Mesmo em tempo de pandemia, a vila fervilha de gente, o comércio precisa de girar, as pessoas também, faltam é certo, os estrangeiros, que em Verões normais nos fazem quase esquecer que estamos em Portugal, mas este é um verão atípico e eles, os estrangeiros ficaram nos seus países! Mas a vila está repleta de portugueses, isso é bom, muito bom! por vezes digo para mim mesma que a Divina Providência se encarrega de colocar as coisas no devido lugar quando tudo se encontra a ultrapassar as estribeiras, e o mundo estava a ultrapassar e muito os limites, era necessário haver um travão, e ele apareceu fazendo o mundo quase parar e recuar! 

Assim sendo, chovia e eu queria sair, então fui até à vila me misturar nos muitos portugueses que mesmo à chuva passeavam, fui só mais uma que passeou à chuva, mas a temperatura estava amena e a chuva era fraca, por isso foi bom. Depois entrei numa esplanada, pedi um café que bebi sem açúcar, fiquei a observar os passeantes e a comparar mentalmente as suas formas de vestir, de andar, de comunicar e, constatando  que dentro de cada individuo existe uma vida e uma forma diferente de ser! todos somos irremediavelmente diferentes, cada um é um ser único  na sua forma de pensar, de sofrer, de ser feliz, de se relacionar com os outros... Estava eu neste devaneio quando de sentou na minha mesa uma amiga acabada de chegar, e ali ficamos na conversa durante um bom bocado, falando de tudo e de nada enquanto a chuva miudinha caía lá fora. Assim se passou uma tarde de chuva em Agosto!

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O padeiro da minha rua!

O empreendedorismo e os pequenos negócios ganharam muito terreno após a crise de 2008, foi sem qualquer dúvida um período muito conturbado na nossa era, uma era muito recente que está ainda bem presente na nossa memória. Ainda assim foi uma época em que Portugal soube tirar partido disso e aproveitar para para oferecer ao mundo o que de melhor tem, o nosso sol, clima, paisagem, cultura, gastronomia e tantos outros produtos que fazem de nós um país escolhido pelo turismo. Portugal se reinventou para melhor! Foi sem dúvida o turismo que impulsionou a nossa economia nos últimos dez anos, assistimos a uma baixa considerável da taxa de desemprego, e tudo parecia estar bem agora, até que, surge este monstro que estraga tudo.... e vai obrigar Portugal a se reinventar de novo!

Toda esta introdução para chegar ao Padeiro da minha rua, um dos pequenos negócios que após muitos anos de interrupção voltou a ganhar forma e espaço nos nossos dias. Todos os dias o padeiro ou vendedor de pão passa na sua carrinha branca bem identificada com uma bonita decoração e um nome sugestivo, nela transporta pão e bolos de várias qualidades que vai vendendo a cada vez mais clientes (explica ele, que vai ter que comprar uma carrinha maior) porque os clientes são cada vez mais; sem grande alarido vai apitando para avisar que está a chegar, parando aqui e ali para deixar o pão aos clientes. E porque, com os vendedores ambulantes, os clientes trocam quase sempre dois dedos de conversa, nesses dois dedos de conversa fiquei a saber que o padeiro da minha rua, agora em tempos de pandemia, tem o dobro do trabalho, o que me leva a dizer que "nunca é mau para todos", há sempre quem tenha que trabalhar mais para que aos outros nada falte!

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