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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Desafio "Arte e Inspiração" Sobreiro#6

Um dia no monte alentejano.

A vida transpirava em cada um dos seus poros, habituada ao movimento desenfreado da cidade, todos os dias era uma correria, o trabalho, a casa, as compras, os filhos já crescidos mas que dependiam dela, a vida social, gostava de ir ao cinema, ao teatro, dançar, praticar exercício físico e ainda gostava de escrever. Queria tudo e no entanto sentia que lhe faltava tudo.

Um dia, assim sem mais nem menos, diz à família que precisa de parar para poder descansar e reflectir, que eles já são todos crescidos que se desenrascam bem sozinhos e, portanto precisa de ter um tempo exclusivamente para si. Informa que vai passar uma semana sozinha no Alentejo.

A ideia ganhou forma e num site de aluguer de casas procurou uma que se situasse longe de tudo, ansiosa, preparou o que achou necessário para levar, pouca coisa, queria se desprender, se desligar do atordoamento da rotina acelerada da cidade. Não abdicou porém dos seus cadernos e lápis, também gostava de fazer uns desenhos.

Já instalada numa casinha pequena e antiga, que fazia parte de uma pequena aldeia restaurada a fazer lembrar a casinha da sua avó materna, havia uma fonte por perto, um riacho, um grande sobreiral e também aquele sol quente.

Na primeira manhã, assim que se levantou foi com uma surpresa agradável que encontrou um saco de pano alegre e colorido com pão ainda quente pendurado na fechadura da porta, feliz com aquele gesto que viria a repetir-se todas as manhãs, tomou o pequeno almoço saboreando  aquele pão alentejano e sentiu-se transportada para outras eras, onde as pessoas viviam cada dia sem pressas.

Saiu com uma pequena esteira debaixo de braço, numa sacola levou uma sandes de queijo de cabra e um pouco de alface,  uma garrafa com água da fonte, o caderno e os lápis, caminhou até encontrar o refúgio perfeito. Debaixo daquele velho e frondoso sobreiro descascado até meio, estendeu a esteira e contemplou aquela bela árvore que sentiu ter estado ali todo o tempo à sua espera, o silêncio era total, às vezes ouvia o canto dos pássaros ou o marafulhar das folhas das árvores por cima da sua cabeça.

Sentou-se, pegou numa folha de papel branca, desenhou e pintou a paisagem tal como os seus olhos a viam, nela sobressaía o sobreiro, toda a sua copa assim como a nudez que deixava a descoberto a parte interior do tronco de tons castanhos e quentes, próprios da estação outonal, ao fundo, o monte onde se situava a casinha que a alojava durante este retiro que lhe daria forças para enfrentar a vida quando regressasse à cidade.

Satisfeita com o seu trabalho, fechou os olhos e desligou-se, era como se mais nada existisse, nem sequer o seu corpo, apenas sentia a sua alma, deixou-se ficar assim inebriada e adormeceu.

Acordou quando começou a sentir um ligeiro arrefecimento na pele, era a humidade do prenúncio da noite, levantou-se sentindo-se leve como uma pluma, olhou novamente o sobreiro, abraçou-o como quem abraça alguém a quem se quer muito e, sentindo a alma e a vida da árvore segredou-lhe, vais ser o meu melhor amigo  enquanto aqui estiver!

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No âmbito do desafio "arte e inspiração" participo eu e:

Fatima Bento, Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno ErvedosaCélia, Charneca Em FlorCristina AveiroGorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMaria AraújoMarquesaMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas ,bii yue

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O padeiro da minha rua!

O empreendedorismo e os pequenos negócios ganharam muito terreno após a crise de 2008, foi sem qualquer dúvida um período muito conturbado na nossa era, uma era muito recente que está ainda bem presente na nossa memória. Ainda assim foi uma época em que Portugal soube tirar partido disso e aproveitar para para oferecer ao mundo o que de melhor tem, o nosso sol, clima, paisagem, cultura, gastronomia e tantos outros produtos que fazem de nós um país escolhido pelo turismo. Portugal se reinventou para melhor! Foi sem dúvida o turismo que impulsionou a nossa economia nos últimos dez anos, assistimos a uma baixa considerável da taxa de desemprego, e tudo parecia estar bem agora, até que, surge este monstro que estraga tudo.... e vai obrigar Portugal a se reinventar de novo!

Toda esta introdução para chegar ao Padeiro da minha rua, um dos pequenos negócios que após muitos anos de interrupção voltou a ganhar forma e espaço nos nossos dias. Todos os dias o padeiro ou vendedor de pão passa na sua carrinha branca bem identificada com uma bonita decoração e um nome sugestivo, nela transporta pão e bolos de várias qualidades que vai vendendo a cada vez mais clientes (explica ele, que vai ter que comprar uma carrinha maior) porque os clientes são cada vez mais; sem grande alarido vai apitando para avisar que está a chegar, parando aqui e ali para deixar o pão aos clientes. E porque, com os vendedores ambulantes, os clientes trocam quase sempre dois dedos de conversa, nesses dois dedos de conversa fiquei a saber que o padeiro da minha rua, agora em tempos de pandemia, tem o dobro do trabalho, o que me leva a dizer que "nunca é mau para todos", há sempre quem tenha que trabalhar mais para que aos outros nada falte!

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