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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Chuva

Já ouço as pingueiras do telhado, ping, ping, ping, prenúncio de um outono próximo, já sinto o cheiro da terra molhada e sinto uma temperatura outonal... Oh chuva que estás aí, tão bem vinda que és, lavas a estrada e os telhados, lavas os pátios, regas as hortas, purificas o ar.... até lavas a alma.... como gosto de te ouvir cair e serenamente bateres na minha janela como um timido amante, permitindo que os meus ouvidos se envolvam na tua deliciosa música!!!

Estou feliz porque chove e apetece-me dançar à chuva!!

Não-se-esconda-da-tempestade-é-melhor-dançar-na

 

Apenas uma caixa

 Sentada na varanda enquanto saboreio o meu indispensável cafezinho após o almoço, observo o plátano que no quintal do vizinho, cresce sem pedir licença erguendo-se cada vez mais alto, perdendo-se no espaço azul a que chamamos céu que, com a sua ramagem verde e densa me proporciona deliciosas sombras quando o calor aperta. Em contrapartida me cobra a vista do mar mesmo ao longe e as vistas das aldeias vizinhas!  É assim o plátano do vizinho, me dá umas coisas e me tiras outras! Quando os ramos crescem tanto que entram pelo meu quintal dentro, pego numa tesoura e corto-os.  Isto acontece quando estamos na Primavera e no Verão porque, quando o Outono chega e já se faz anunciar a chegada, as suas folhas demasiado maduras, acastanhadas e ressequidas, caem em abundância, roupagem velha, talvez inútil, coisa que ninguém quer, ou ...talvez queira.... a utilidade como fertilizante poderá ser um dos seus destinos. Mas a folhagem inútil ou reutilizável inunda todo o meu espaço, o vento as leva daqui para ali e é escusado andar atrás delas, porque saem umas e logo vêem outras, até que a árvore fica indefesa, despida, qual esqueleto dissecado e, esguio aponta os seus braços ao céu, suplicando que venha a Primavera para se vestir de novo!

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Lá em baixo o portão da garagem está aberto, o vento sopra, as folhas redopiam numa dança embalada pela música do vento e, sem autorização, empurradas, atropelando-se umas contra as outras entram portão adentro, qual alegre brincadeira de crianças se divertindo sem preocupações! 

A garagem cheia de folhas obriga-me a pegar na vassoura e varrer.... quando dou por mim, estou a vasculhar gavetas na arrecadação, que não são abertas há anos e encontro algo que me faz recuar no tempo. 

Aquela tampa vermelha, ali na minha frente, instantaneamente me leva ao tempo de menina, quando o meu pai me ensinou o valor do dinheiro e de como era importante saber poupar. Aquela caixinha foi o meu primeiro mealheiro, ela me ajudou a perceber desde cedo que nunca se deve gastar tudo!

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Guardamos coisas porque achamos que um dia nos poderão fazer falta ou porque encerram memórias que não queremos que desapareçam com o tempo! o facto de ter guardado a caixinha branca com tampa vermelha, mesmo esquecida na arrecadação foi precisamente para perdurar a memória que dela  ficaria. É apenas uma caixa sem qualquer valor, eu sei. Mas se pensarmos que  somos nós que atribuímos o valor às coisas mediante a importância que elas têm para nós, chegamos à conclusão que o que para uns é lixo, para outros são bens com bastante utilidade mesmo que se trate "apenas" de memórias! E as memórias fazem parte da nossa identidade!

Memórias será um tema para uma futura publicação!

Sou apenas uma folha de outono

Hoje, apenas sou uma folha de outono,

Já fui pequenina, já fui jovem,

Verde e viçosa

a vida transbordava da minha seiva,

abriguei na minha sombra

tantos que nem conseguia contar

Porém, agora

que a frescura e vitalidade

me abandonam, 

que me desprendo da veia que me alimenta,

que involuntáriamente caí ao chão

que ninguém precisa de mim,

estou esquecida, amarelada

no chão caída,

à espera

que o vento me leve para longe

dos olhares piedosos,

que a água da chuva me arraste

e me transforme,

porque, hoje apenas sou uma folha de outono!

(Maria Flor)

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As estações da nossa vida

O fim do verão era já anunciado com  a temperatura a descer, e o tamanho dos dias a decrescer. Aí estão os sinais de que o outono se instala e com ele o amarelecimento, depois a cor vermelho acastanhado das folhas e a sua consequente queda. Tudo vai ficar com folhas meio secas no chão, elas vão rolar com o sopro do vento, são transportadas para outros sítios, as árvores vão ficar despidas, despojadas de toda a magestosa folhagem que as embelezou nas anteriores estações, apenas vai restar um esqueleto escuro, sem graça e sem utilidade até à proxima primavera. A natureza humana é quase assim, apenas as suas estações duram um pouco mais, mas, à medida que a idade avança, a sensação que fica é de que se viveu somente uma vez as quatro estações.

As estações da nossa vida:

Primavera, nascemos, crescemos bonitos e saudáveis, a transbordar de energia, tornamo-nos em homens e mulheres fortes com idéias e projetos de poder mudar o mundo.

O verão da nossa vida, queremos ter o nosso espaço, fundar a nossa familia, obter êxito profissional, adquirir estabilidade familiar e económica.

No outono, queremos beneficiar do produto de toda uma vida de trabalho, queremos fazer aquelas viajens que não tivemos oportunidade de fazer, queremos ler aqueles livros que se foi sempre adiando, queremos nos dedicar a artes para as quais temos aptidão e nunca tivemos tempo para explorar, queremos nos dedicar mais à familia, mesmo que a nossa familia já tenha a familia deles. Mas o outono da nossa vida muitas vezes reserva-nos supresas desagradáveis e não nos deixa tempo, forças e disposição para estas coisas.

O inverno da nossa vida não teria que ser triste, mas infelismente, para a maioria das pessoas é uma estação muito, mesmo muito triste, cheia de sofrimento fisico, espiritual e emocional.

Na próxima estação a vida se renova e tudo começa de novo!