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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Hoje foi assim, o dia da horta

De luvas de borracha nas mãos, dirigiu-se à casita onde normalmente arrumava as ferramentas, escolheu três ou quatro utensílios, os que lhe pareceu serem mais adequados para o trabalho que queria desenvolver neste dia. Começou por arrancar ervas e mais ervas que cresciam desalmadas no meio dos cebolos já plantados anteriormente, tem conhecimento de que podia limpar a terra das ervas com mais facilidade e mais rapidamente, utilizando os produtos químicos que existem no mercado para o efeito, mas não quer contaminar a terra e além disso quer produzir os seus poucos produtos de uma forma mais ecolológia, por isso descartou logo de inicio a utilização de produtos químicos.

Enxada mais larga, enxada mais pequena, ancinho, gadanho e ainda um xacho foram as ferramentas escolhidas, arrancou ervas, mexeu, estrumou e alisou a terra e fez a sua plantação ecológica; foram couves de três qualidades, alfaces, alhos franceses e morangueiros, no fim regou tudo com um regador para aconchegar a terra à raíz da planta, ficou assim preparada a mini hortinha. Agora é só esperar que cresça, arrancar as ervas quando elas também crescerem e regar se for preciso. Hoje foi assim o dia!

Nada sabe melhor do que aquilo que cultivámos e fazemos crescer com as próprias mãos!

 

Daqui a umas semanas já as minhas alfaces estão como estas!!!

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 (Imagem da net)

Refúgio

Aquele era o seu refúgio. Quando se aborrecia de estar em casa, dirigia-se para ali, aquele bocadinho de terra que lhe tinha calhado em herança, situava-se à beira de um ribeiro  e durante todo o ano corria um leito de água transparente. Por momentos, sentava-se na sua margem e perdia-se a ver a água deslizar formando pequenas ondas de espuma que logo se desfaziam. Quando estava sol e este batia diretamente na água corrente, ela brilhava como fios de prata saltando por cima das pedras já polidas e gastas pelo tempo. Ficava ali a ver e perdia-se em devaneios.

 

Naquele bocadinho de terra macia e de bom trato, plantava os morangueiros, as alfaces, algumas couves e tinha sempre salsa, coentros e hortelã, às vezes também deitava umas sementes de cenouras, mas as cenouras demoravam muito tempo a desenvolverem-se e muitas das vezes vinham tortas e com formas esquesitas.

 

Sentia-se bem ali, nos pés trazia sempre um par de tênis velhos, muito velhos ou botas de borracha, vestia igualmente uma roupa também sem graça e fora de moda,  nas mãos trazia sempre luvas de borracha que por vezes se rompiam e deixavam sujar e estragar as unhas e as mãos, à noite compensava com camadas de creme hidratante. Por vezes as costas doíam-lhe mas uma noite de repouso e estava pronta para outra.

 

Aquele bocadinho de terra fazia parte da sua alma, era o seu refúgio. Quando ali estava, era só mesmo ali que estava de corpo e alma. 

 

 

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Hoje estava neste seu refúgio quando ouviu algumas badaladas espaçadas do sino da igreja da aldeia. Pareciam aquelas badaladas que tocam quando alguém morre. Ergueu-me muito direita .... alguém morreu, apressou-me a desejar um pensamento ao defunto "paz à sua alma".

 

Voltou ao seu vício, estavam a crescer muitas ervas daninhas à volta dos morangueiros, comecou a arrancá-las, a terra estava muito macia e elas saíam facilmente. Ao final da tarde quando regressou a casa soube pela vizinha que que tinha sido aquele senhor que tinha quase cem anos que se finara!