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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Desafio Caixa de lápis de cor#6#Caderno de memórias

Caderno das memórias!

Inspirada na proposta da Fátima Bento. ..para o desafio "Caixa lápis de cor", esta semana a cor laranja é a favorita... nem de propósito, a capa do caderno onde uma menina guarda memórias é cor de laranja. Hoje vou falar de uma dessas memórias!

Numa época em que não havia tecnologia, as raparigas e rapazes adolescentes tinham o seu modo de se comunicar e arranjar novos amigos (facebook da época). Havia revistas com anúncios de jovens a pedir correspondência com outros mais ou menos da sua idade, colocavam o seu nome e morada nesses anúncios. Outra forma era com postais, uma pessoa enviava postais para cinco pessoas  com cinco nomes e pedia a essas cinco pessoas que fizessem o mesmo, criando assim uma rede de diversos contactos. Foi desta forma que a menina autora do caderno com capa cor de laranja começou a receber cartas, muitas cartas, quase todos os dias da semana, ela adorava escrever e receber cartas.

Arranjou amizades que duram até aos dias de hoje e agora comunicam  por meio das novas tecnologias através das redes sociais. No entanto, existe no caderno das memórias uma dessas amizades que se perdeu há muitos anos, era uma grande amizade e com as circunstâncias da vida perdeu-se no tempo, mas existem as cartas... que não deixam esquecer e, de tempos a tempos surge uma vontade muito grande de procurar essa pessoa, saber como foi a vida dela e como está hoje, onde vive, como vive, mesmo que tenham passados longos anos. (recordo aqui o programa "ponto de encontro " que passou na TV há largos anos, e que gostava de ver.

Agora a mulher que lê as cartas volta ser aquela menina, volta a ouvir o apito da bicicleta do carteiro, volta a ver aquele saco grande de cabedal onde ele transportava as cartas, volta sentir-se encantada e feliz a ler todas aquelas palavras que os seus amigos e amigas correspondentes escreviam, alguns com uma letra tão bonita e bem desenhada que dava gosto de ler e reler. Levava horas a responder e também ela tinha o cuidado de escrever bem e sem erros ortográficos. 

Escreviam cartas de todas as cores que havia, verde, amarelo, rosa, azul etc...Depois, tinham uma forma muito elaborada e carinhosa de dobrar.  Tudo era feito com a máxima perfeição, havia orgulho nisso e havia também o cuidado de guardar, por isso, algumas dessas cartas ainda se encontram dentro do caderno com a capa cor de laranja já desbotada pelo tempo! Porque o tempo correu.....sem esperar por quem ia ficando para trás... nem espera.... quando estiveres a ler estas palavras, sabes que o momento em que foram escritas já é passado...!

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(imagem tirada da net)

Neste desafio participo eu,Fátima Bento Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa,  a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, e a bii yue

"Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor".

 

Apenas uma caixa

 Sentada na varanda enquanto saboreio o meu indispensável cafezinho após o almoço, observo o plátano que no quintal do vizinho, cresce sem pedir licença erguendo-se cada vez mais alto, perdendo-se no espaço azul a que chamamos céu que, com a sua ramagem verde e densa me proporciona deliciosas sombras quando o calor aperta. Em contrapartida me cobra a vista do mar mesmo ao longe e as vistas das aldeias vizinhas!  É assim o plátano do vizinho, me dá umas coisas e me tiras outras! Quando os ramos crescem tanto que entram pelo meu quintal dentro, pego numa tesoura e corto-os.  Isto acontece quando estamos na Primavera e no Verão porque, quando o Outono chega e já se faz anunciar a chegada, as suas folhas demasiado maduras, acastanhadas e ressequidas, caem em abundância, roupagem velha, talvez inútil, coisa que ninguém quer, ou ...talvez queira.... a utilidade como fertilizante poderá ser um dos seus destinos. Mas a folhagem inútil ou reutilizável inunda todo o meu espaço, o vento as leva daqui para ali e é escusado andar atrás delas, porque saem umas e logo vêem outras, até que a árvore fica indefesa, despida, qual esqueleto dissecado e, esguio aponta os seus braços ao céu, suplicando que venha a Primavera para se vestir de novo!

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Lá em baixo o portão da garagem está aberto, o vento sopra, as folhas redopiam numa dança embalada pela música do vento e, sem autorização, empurradas, atropelando-se umas contra as outras entram portão adentro, qual alegre brincadeira de crianças se divertindo sem preocupações! 

A garagem cheia de folhas obriga-me a pegar na vassoura e varrer.... quando dou por mim, estou a vasculhar gavetas na arrecadação, que não são abertas há anos e encontro algo que me faz recuar no tempo. 

Aquela tampa vermelha, ali na minha frente, instantaneamente me leva ao tempo de menina, quando o meu pai me ensinou o valor do dinheiro e de como era importante saber poupar. Aquela caixinha foi o meu primeiro mealheiro, ela me ajudou a perceber desde cedo que nunca se deve gastar tudo!

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Guardamos coisas porque achamos que um dia nos poderão fazer falta ou porque encerram memórias que não queremos que desapareçam com o tempo! o facto de ter guardado a caixinha branca com tampa vermelha, mesmo esquecida na arrecadação foi precisamente para perdurar a memória que dela  ficaria. É apenas uma caixa sem qualquer valor, eu sei. Mas se pensarmos que  somos nós que atribuímos o valor às coisas mediante a importância que elas têm para nós, chegamos à conclusão que o que para uns é lixo, para outros são bens com bastante utilidade mesmo que se trate "apenas" de memórias! E as memórias fazem parte da nossa identidade!

Memórias será um tema para uma futura publicação!

Memórias

Era uma vez, no tempo em que era normal ir passear num autocarro cheio de gente, onde todos se cumprimentavam com beijinhos e apertos de mão, onde se cantava, contava anedotas, se conversava com a pessoa que estava ao nosso lado, e com o grupo, um tempo em que podíamos mexer em todos aqueles artigos artesanais sem aquele medinho que hoje temos na ponta dos dedos. Já houve um tempo que visitava castelos, igrejas, jardins, museus, adegas, espaços artesanais de azeite e queijo, um tempo em que pernoitava em hotéis e comia em restaurantes...um tempo em que não eram necessárias máscaras, luvas e desinfectante de mãos, um tempo bom, em que tão pequenas coisas eram apenas normais e por serem tão normais nem sabíamos dar o valor porque simplesmente era um dado adquirido por natureza. Hoje temos saudades desse tempo que parece que já ficou para  trás e que já faz parte de um passado, que já faz parte da historia de cada um de nós. Hoje temos medo de ir ao supermercado, de andar em transportes públicos, de ir à farmácia e ao centro de saúde..... ficaram as memórias! Uma vez por outra, quando a melancolia se instala percorro essas memórias através das imensas fotos que enchem a minha caixa. Hoje, encontrei estas de uma viajem a Chaves, uma viajem muito divertida com um excelente grupo! Que saudades dos passeios e de tantas outras coisas! Numa palavra, saudades da vida normal!

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As memórias de uma casa

Por várias vezes tenho reparado naquela casa que tem na varanda um letreiro que diz "Vende-se". Soube há algum tempo que o seu proprietário morreu, ele vivia ali com uma senhora, pessoas "entradotas" na idade, para não dizer idosas, porque já o eram, pessoas que eu conhecia e que via várias vezes a passear de carro e também a almoçar num restaurante que eu regularmente frequentava.

 

O senhor morreu, quanto à senhora, nunca mais a vi. O jardim da casa estava sempre bem cuidado, as flores que o embelezavam estavam sempre coloridas, a piscina estava sempre azul. Agora, o jardim tem um aspeto pouco cuidado, a piscina está vazia, os estores estão sempre para baixo, a vida que existia naquela casa e naquele jardim desapareceu.

 

Hoje, quando passei por aquela rua, olhei para a casa, o letreiro já não estava lá. Certamente que já foi vendida.

A casa voltará a ter vida, a piscina voltará a ter gente a mergulhar nela, as flores voltarão a desabrochar bonitas e coloridas.

 

Os novos proprietários irão dar uma renovação à casa, com tinta nova irão apagar memórias que aquelas paredes testemunharam, irão apagar momentos de amantes que dentro daquelas paredes segredaram palavras que só eles ouviam. Com a substituição dos móveis irão apagar o conforto que se viveu afundado num sofá macio, irão apagar as noites passadas no aconchego de uma sala aquecida por uma lareira, irão apagar a azáfama que se viveu nas vésperas de natal na preparação da consoada. Com outras vidas, irão apagar as vidas que já se apagaram nas paredes daquela casa. Com a renovação da casa, irão apagar todas as memórias vividas, irão criar novas memórias....

 

Mas as memórias dos mortos não se resumem apenas às memórias que as paredes presenciam. Essas memórias podem-se apagar com o rolo e a tinta ou o papel de parede e a substituição dos móveis. As memórias dos mortos ficam na memória dos vivos que os amaram, aí sim, eles permanecem sempre vivos, independentemente das paredes que os protegeram!