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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Abril águas mil

Cais de mansinho, em gotas suaves, melodiosas, deslizas lentamente sobre o pano do guarda chuva e desfazes-te no piso alcatroado em que caminho. Unes-te a milhares de outras gotas e juntas formam uma corrente que segue em direcção ao ribeiro.

Indiferente à chuva que cai sobre as abas do seu chapéu, ela caminha embalada pelo seu som, e atenta aos veículos que passam. Salpicos vão molhando os sapatos, as calças, as mãos e o cabelo, mas isso não importa, ela gosta de caminhar à chuva, gosta do seu som, da sua melodia, gosta dos salpicos e de ver as pingas caírem em cima das outras pingas.

De repente um relâmpago, assusta-se um pouco, mas logo se recompõe e segue-se o trovão, as pingas estão a cair mais fortes até que se tornam numa chuva torrencial e ela ali com chapéu de chuva na mão... avista o canavial... corre a abrigar-se.... é um telheiro roto mas abriga um pouco. Permanece ali enquanto a chuva forte dura e pensa.... está a regar a hortinha, que bom, nada como água da chuva para as plantas, tudo fica mais vivo mais resplandecente e viçoso.

Em pouco tempo forma-se o lençol de água na estrada, os carros passam e levantam a água em saraivadas fortes e brutas.

"Em Abril águas mil"

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O chão e as máscaras

Inicio a minha caminhada a partir de casa e vou caminhar sozinha até onde os passos me levarem. Visto uma roupa confortável, calços os meus sapatos de caminhar à prova de água e na cabeça ponho uma fita de malha. O telemóvel e os fones vão me acompanhar para ouvir música, escolho uma série de músicas portuguesas e ouço, Marisa, Camané, Carminho, Carlos do Carmo e outros que também gosto. Na mão levo uma pequena garrafa de água.

O dia estava claro, liberto das nuvens negras, do nevoeiro e das chuvas dos últimos dias. Não dá para ficar dentro casa hoje, pensa, tenho que sair. O sol já desponta e aquece. Mesmo em confinamento saio de casa, vou caminhar para sítios onde poucas pessoas andam.

É certo que tenho que atravessar a aldeia, mas até mesmo na aldeia quase não cruzo com ninguém, no entanto, como caminho sozinha estou mais atenta ao que surge à minha frente e, mesmo não encontrando gente nas ruas, a aldeia ferve de vida com as pessoas do lado de fora das casas dentro dos seus quintais entretidas com afazeres ou simplesmente a apanhar sol, um pouco de vitamina D é bem vinda, as roupas a secar ao sol dão vida e cor aos estendais, as janelas abertas de par em par renovam o ar das casas e alguns homens preparam terreno para plantar as plantas que lhe darão produtos frescos nas suas pequenas hortas no inicio da Primavera. Passo por uma senhora que está a despejar o lixo, reparo no seu cabelo branco e o sol que incide sobre o mesmo empresta-lhe uma luminosidade e reflexos extraordinários nos fios. Achei aquele cabelo lindo.

Quando deixo a aldeia para trás, entro numa zona de pinheiros onde o caminho é de terra, mas tem pouca lama, avisto uma coisa azul claro pendurada num galho de um carrasco, ao aproximar-me vejo que é uma máscara.

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Durante as minhas caminhadas encontro com frequência máscaras caídas nas bermas dos caminhos ou das estradas, não entendo o porquê ou o que é que custa colocá-las no sitio certo. Existem tantos contentores espalhados por todo o lado, e uma máscara é uma coisa tão pequena, porquê deitá-la no chão. Muitas vão parar ao mar levadas pelo vento e pela água das chuvas. É extremamente desagradável o cenário que se nos depara com as máscaras caídas aqui e ali. Uma falta de respeito para com o próximo e para o ambiente.

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Gosto de rios, ribeiros, ribeiras e quedas de água, devido às chuvas constantes que têem caído, encontro com alguma regularidade estas águas correntes. A água tem um poder calmante sobre mim!

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No fim de uma hora e meia de caminhada, chego a casa. Foram 8 Kms!

Chuva

Já ouço as pingueiras do telhado, ping, ping, ping, prenúncio de um outono próximo, já sinto o cheiro da terra molhada e sinto uma temperatura outonal... Oh chuva que estás aí, tão bem vinda que és, lavas a estrada e os telhados, lavas os pátios, regas as hortas, purificas o ar.... até lavas a alma.... como gosto de te ouvir cair e serenamente bateres na minha janela como um timido amante, permitindo que os meus ouvidos se envolvam na tua deliciosa música!!!

Estou feliz porque chove e apetece-me dançar à chuva!!

Não-se-esconda-da-tempestade-é-melhor-dançar-na

 

Agosto Sol e Chuva

O dia amanheceu com chuviscos, mas já sabia que ia ser assim, com a previsão meteorológica no telemóvel a todo o momento, e eles raramente falham, sabemos sempre o que o tempo vai fazer nas horas seguintes. Assim, melhor esquecer a praia e arranjar outro modo de ocupar o tempo neste mês de Agosto, amanhã estará céu azul e sol quente! viver perto da praia tem estas vantagens! Mesmo em tempo de pandemia, a vila fervilha de gente, o comércio precisa de girar, as pessoas também, faltam é certo, os estrangeiros, que em Verões normais nos fazem quase esquecer que estamos em Portugal, mas este é um verão atípico e eles, os estrangeiros ficaram nos seus países! Mas a vila está repleta de portugueses, isso é bom, muito bom! por vezes digo para mim mesma que a Divina Providência se encarrega de colocar as coisas no devido lugar quando tudo se encontra a ultrapassar as estribeiras, e o mundo estava a ultrapassar e muito os limites, era necessário haver um travão, e ele apareceu fazendo o mundo quase parar e recuar! 

Assim sendo, chovia e eu queria sair, então fui até à vila me misturar nos muitos portugueses que mesmo à chuva passeavam, fui só mais uma que passeou à chuva, mas a temperatura estava amena e a chuva era fraca, por isso foi bom. Depois entrei numa esplanada, pedi um café que bebi sem açúcar, fiquei a observar os passeantes e a comparar mentalmente as suas formas de vestir, de andar, de comunicar e, constatando  que dentro de cada individuo existe uma vida e uma forma diferente de ser! todos somos irremediavelmente diferentes, cada um é um ser único  na sua forma de pensar, de sofrer, de ser feliz, de se relacionar com os outros... Estava eu neste devaneio quando de sentou na minha mesa uma amiga acabada de chegar, e ali ficamos na conversa durante um bom bocado, falando de tudo e de nada enquanto a chuva miudinha caía lá fora. Assim se passou uma tarde de chuva em Agosto!

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