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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Recordar é viver

Abeirara-se da arriba para mais uma vez deslizar o olhar sobre a imensidão de azul que se estendia à sua frente, uma imensidão de azul salpicada por "carneirinhos brancos". Na linha em que o mar e o céu se dividem, avistava os contornos de uma embarcação. Assim permanecia por largos momentos e a sua memória vagueava por outras paragens, esquecia-se do local e do tempo onde estava.

 

Pareceu-lhe ouvir alguém chamar o seu nome - Violeta, não ligou, absorta que estava nas suas recordações, voltou a ouvir, Violeta - voltou-se, e na sua frente estava alguém que a olhava, alguém que não reconhceu.

- Não me reconheces Violeta, estou assim tão diferente? perguntou a pessoa que tinha pronunciado o seu nome.

- Conheço-o de algum lado? perguntou.

Devo estar realmente muito diferente para não me reconheceres, ao invés de ti que estás sempre igual, parece que tens uma aliança com o tempo, estás sempre bonita! Tenho-te visto algumas vezes sem que tenhas percebido.

Galanteio ou simpatia... O tempo passou para os dois e se encarregou de dar a cada um a sua marca, mais ou menos pronunciada.

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Aos poucos, começou a reconhecer alguns traços de juventude que a passagem dos anos teimava em apagar, aquele rosto que lhe pareceu estranho, tornava-se agora familiar, sim, era ele, não havia dúvida era Carlos. 

 

De estatura baixa, agora de barriga algo saliente a puxar para gordo, cabelo grisalho e barba de alguns dias, passava realmente despercebido a um olhar meio distraído. Mas, sim, era ele.

 

Quarenta e tal anos se passaram sem nunca mais se terem visto ou falado e, agora que ali estavam, também nada se apresentava para dizer. Optaram por falar do rumo que as suas vidas tinham tomado, das familias que constituiram, de alguns projetos que concretizaram...

 

Ali, olhando o mar, riram ao recordarem o tempo em que se conheceram, os bailes, os cafés, os pequenos passeios, o convívio, as festas... como "recordar é viver", reviveram um pouco da juventude, da qual ainda sobra uma réstia!