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Abrigo das letras

Abrigo das letras

O meu olhar sobre#2#rosto de um idoso

De olhar cansado pelos anos onde já não há lugar para as letras, a visão a falhar saída de uns olhos quase escondidos pelo sulco das rugas que os envolvem, existe uma serenidade que não foi roubada pelos anos de trabalho árduo. Um rosto outrora, robusto e queimado pelo sol, pelo frio e chuva encontra-se agora claro e flácido envolto numa rala cabeleira branca, também sinal de uma juventude que há muito o abandonou.

Segura a bengala que o ampara quando dá os seus pequenos passeios, porque as forças pujantes de outrora escasseiam agora mas, não obstante as dificuldades ele obriga-se a caminhar um pouco todos os dias, segue as recomendações do médico, diz que é bom para o coração e para os movimentos dos ossos e músculos. Os seus passeios são curtos mas o suficiente para que não perca mobilidade.

Sente uma saudade atroz do tempo em que trabalhava de sol a sol, de mexer na terra, da faina do tractor, de arrancar da terra o produto da sementeira, sente saudade de sentir a roupa molhada pela chuva, e do calor abrasador do verão, do cantar dos pássaros e dos passos que o levavam às terras.

Aos domingos ia à missa, nunca falhava antes da pandemia, gosta de lá ir, toda a sua vida foi, já não sabe se vai por devoção ou por hábito, é uma coisa que faz parte da sua vida. Agora não há, encara isso com alguma tristeza, diz o neto que se alguma vez voltar a ir tem que levar uma máscara, acha isso uma coisa estranha mas já se habituou a ver toda a gente de máscara...

Poucas são as coisas que o prendem à vida, já viveu muito, diz. A única coisa que lhe dá uma felicidade imensa, a mais importante do seu dia, é a visita dos seus filhos, conta os dias e as horas que faltam para eles chegarem, sabe exactamente quem vai  naquele dia e conta as mesmas histórias vezes sem conta, pequenos episódios da sua longa vida e lendas que ouviu contar. Agradece todos os dia a Deus pela sua vida e pede pela saúde da sua família.

Nota-se no seu rosto e nas suas mãos as marcas de uma vida árdua mas também de muito amor, e os seus olhos transmitem em cada momento a serenidade que o seu coração contém!

Carrega nos ombros o peso dos anos e a solidão dos dias!

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2 comentários

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    Maria 08.02.2021 19:46

    A solidão bate à porta de qualquer um, e não é só á porta dos menos novos. Mas nos idosos é muito triste!
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