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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Agora os dias são todos iguais

Numa época já passada a senhora X quando abria o guarda roupa, escolhia um vestido daqueles que mais gostava ou uma blusa fina para combinar com umas calças brancas, retirava da gaveta umas meias finas e punha de parte aqueles sapatos pretos de salto alto, após se equipar com isto tudo  aplicava um pouco maquilhagem,  olhava o espelho e sentia-se bonita.  Pronta para ir dançar. A hora combinada para sair estava prestes a chegar e a sua amiga devia estar a aparecer dentro de poucos minutos. Pegava num casaco e na mão levava uma bolsa pequena e um saco de papel com uns sapatos suplentes.

Na sala de dança, elas dançavam e rodopiavam ao som da música com os pares, desde que chegavam até à hora de sair dançavam quase todas as músicas e, quando os pés acusavam já algum desconforto, trocavam os sapatos por aqueles que iam no saco. Quando regressavam a casa vinham cansadas, mas felizes. Descontraídas e revigoradas, divertiam-se a comentar mais uma bela tarde de dança. Dançar e conviver era o escape que as motivava para iniciar com garra a próxima semana de trabalho. Era... porque agora já não é.... tudo se esfumou, trabalho, diversão, convívio.... com uma pandemia que surgiu em Março de 2020, agora os dias são todos iguais.

Por vezes a senhora X se baralha com os dias e tem que fazer contas para perceber  em que dia da semana está, se é quinta, se é sexta ou outro dia qualquer. Consequências nefastas do isolamento que uma pandemia sem precedentes causou.

Os dias são todos iguais, emersos numa rotina de um confinamento que tende a atrofiar até as mentes mais fortes. 

Inventam-se trabalhos para estar ocupado, inventam-se caminhadas por tudo quanto é sitio, corre-se no paredão e, ao Domingo com um dia cheio de sol  e uma temperatura primaveril vê-se gente por todo o lado. Por mais que se queira respeitar o confinamento existe algo dentro de cada ser humano que chama mais alto, que clama pela a vida que se deixou para trás, existe a ansiedade de sair, existe a vontade de beijar e abraçar com a naturalidade perdida as pessoas que são queridas, existe a vontade de voltar a ter refeições de convívio, existe a falta das festas populares.... Existe uma saudade tremenda de tudo.

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