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Abrigo das letras

Abrigo das letras

Espanto

A piscina estava ali, as meninas treinavam dentro de água e ela, a Clotilde assistia ou esperava no carro. Saturada de fazer de taxista, começava a germinar dentro dela a ideia de:  - por que raio não vou também para dentro da piscina!

Havia coisas que ela pensava que só se destinavam aos outros, esquecia-se porém de que fazia parte dessa fatia "os outros".

Clotilde era uma mulher jovem, mas tinha assumido o estatuto de velha naquele dia da reviravolta da sua vida. Nada mais a interessava. Só tinha um objectivo, e esse objectivo estava a nadar na piscina.

Também pensava que nunca conseguiria se manter à tona da água, não sabia nadar e tinha medo de meter a cabeça debaixo de água e por isso nunca conseguiria aprender a nadar mas estava ciosa de aprender.

Um dia incentivada por uma amiga resolveu inscrever-se, pelo menos não estaria a fazer de espectadora enquanto esperava pelas meninas.

Um dia após outro ia fazendo umas melhorias até que para seu espanto percebeu que conseguia manter-se à tona sem a ajuda da prancha e dar umas braçadas.

Quando consegue fazer 25 metros o seu ego subiu duzentos por cento e, partir daí aprendeu outras práticas de natação e percebeu que o estatuto de velha que tinha automaticamente assumido estava a impedi-la de viver. Afinal, era uma mulher nova e tinha tantas coisas para aprender e para viver. Percebeu que tinha simplesmente de se abrir para o mundo!

Texto escrito no âmbito de Os desafios da Abelha

Abril águas mil

Cais de mansinho, em gotas suaves, melodiosas, deslizas lentamente sobre o pano do guarda chuva e desfazes-te no piso alcatroado em que caminho. Unes-te a milhares de outras gotas e juntas formam uma corrente que segue em direcção ao ribeiro.

Indiferente à chuva que cai sobre as abas do seu chapéu, ela caminha embalada pelo seu som, e atenta aos veículos que passam. Salpicos vão molhando os sapatos, as calças, as mãos e o cabelo, mas isso não importa, ela gosta de caminhar à chuva, gosta do seu som, da sua melodia, gosta dos salpicos e de ver as pingas caírem em cima das outras pingas.

De repente um relâmpago, assusta-se um pouco, mas logo se recompõe e segue-se o trovão, as pingas estão a cair mais fortes até que se tornam numa chuva torrencial e ela ali com chapéu de chuva na mão... avista o canavial... corre a abrigar-se.... é um telheiro roto mas abriga um pouco. Permanece ali enquanto a chuva forte dura e pensa.... está a regar a hortinha, que bom, nada como água da chuva para as plantas, tudo fica mais vivo mais resplandecente e viçoso.

Em pouco tempo forma-se o lençol de água na estrada, os carros passam e levantam a água em saraivadas fortes e brutas.

"Em Abril águas mil"

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Desafio Caixa de lápis de cor#13# Roupa branca

Na sequência de textos escritos baseados nas cores com o titulo " caixa de lápis de cor" esta semana é-nos sugerido que deitemos para o papel o que nos faz lembrar a cor "branco" assim que ela nos assola à cabeça. Esta é a última cor ou "ausência de cor" deste desafio que começou há cerca de doze semanas. Décima terceira e última do desafio.

O que me faz lembrar o tão puro branco: Lenços brancos a acenar aquando a passagem da Imagem de Nossa Senhora de Fátima; Pombas brancas e rosas brancas símbolos de Paz e Pureza; Noite branca passada num cruzeiro nas ilhas gregas, quando todos os passageiros e tripulantes se vestem de branco; casario em certas zonas do país; neve, geada, algodão, nuvens brancas e, entre outras coisas aquela que me inspira hoje é:

Roupa branca a corar ao sol

Às segundas feiras era dia de lavar a roupa da semana anterior, toda a roupa da casa e de toda a família, as roupas das camas da mesa e de vestir. Trouxas e alguidares repletos de roupa suja eram carregados à cabeça até ao rio do povo, um grande tanque sempre com agua a correr lá para dentro por um lado e a sair por outro, com pedras lisas inclinadas para o interior do mesmo a toda a volta do tanque. Estas pedras serviam para as mulheres molharem e esfregarem as roupas com sabão azul e branco para as roupas escuras e sabão clarim para as roupas brancas. Molham, ensaboam, esfregam uma e outra vez até que não reste nenhuma sujidade na roupa, (um trabalho duro que deixava as mãos terrivelmente desidratadas, os pulsos abertos e as costas completamente derreadas) as famílias eram numerosas e as roupas muito sujas, eram roupas de trabalho no campo e nas olarias e, até a roupa das crianças era muito suja, as crianças brincavam na rua o tempo todo em que não estavam na escola.

Às roupas brancas nomeadamente as roupas interiores de vestir e os lençóis da cama era dado um tratamento especial, pois queriam-se roupas brancas, muito brancas, então, depois de toda a sujidade tirada, voltava-se a ensaboar a roupa e estendia-se em cima das ervas ou em algum sitio que desse jeito a corar ao sol ou seja a branquear. Havia quem já usasse lixívia, um método mais rápido e mais moderno para branquear mas, a minha memória da roupa a corar ao sol é bem mais interessante do que a lixívia.

Depois de todo o processo da lavagem era hora de carregar todas as peças dentro do alguidares até ao quintal da casa onde várias cordas amarradas a paus, eram os estendais, aí se penduram as roupas para secar. A aldeia à segunda feira era uma autentica aldeia de roupa a secar ao sol em todos os quintais. Os lençóis das camas eram sempre brancos, seja por isso ou não, o facto é que aqui a menina só gosta de lençóis brancos na sua cama, aprecia especialmente aqueles lençóis bordados de forma artesanal tipo bordado da madeira. No verão não há material mais fresco numa cama do que o lençol branco de algodão.

Os rios do povo, para além de serem um local de trabalho eram também um local de muito convívio e bisbilhotice, ali se sabia quem casou, quem morreu, quem comprou ou quem vendeu o quê,  quem casou, quem emigrou, quem anda com quem e por aí fora.... ali se sabia tudo, era o jornal do dia.

De tempos a tempos era preciso lavar o tanque/rio, um grupo de raparigas organizavam-se e tratavam de o despejar, depois com vassouras esfregavam as paredes e o chão de tanque, lavavam tudo bem lavado e voltavam a a encher, era uma manhã ou uma tarde de paródia. Às vezes calhava encontrarem algumas moedas no fundo do rio, dinheiro que ficara esquecido nos bolsos das roupas a serem lavadas, ninguém o podia reclamar e elas dividiam em valores iguais e era mais um dinheirinho que tinham para gastos.

Quem ler isto pensará que a menina está a relatar uma época da pré história, pois é mesmo essa a sensação que ela tem, dada a velocidade a que tudo evolui. Retroceder no tempo e colocar-se naquela época é quase como entrar numa história dos nossos antepassados tipo, nossos avós ou mesmo bisavós, mas não, este modo de vida não aconteceu assim há tantos anos, é apenas um passado recente. Felizmente um engenho maravilhoso foi conseguido e a vida das mulheres ganhou uma substancial qualidade de vida a partir daí, abençoadas máquinas de lavar!

Ainda não foi falado aqui sobre as roupinhas dos bebés, e nasciam muitos, as fraldinhas de pano que todos os dias tinham que ser lavadas, era ver os estendais cheios de fraldas brancas, muito brancas. As descartáveis ainda eram uma utopia!

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Neste desafio encontramo-nos todas as semanas eu a Marquesa a Concha, a A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o José da Xã e o João-Afonso Machado  a Fátima Bento

 

 

Areia embrulhada em espuma

Caminho sobre o rebentar das ondas, piso areia embrulhada em espuma, a frescura envolve os meus pés e os beija com doce ternura. As pegadas que atrás de mim deixo, são engolidas pela mesma areia embrulhada em espuma que piso deixando a areia lisa e intocada, nenhum rasto de mim fica com se de uma vida apagada se tratasse... o mar tem este poder... da mesma forma que apaga as tuas pegadas na areia, apaga a tua memória quando contemplas essa imensidão de água até perder de vista que é o oceano.

Estendo o olhar e avisto no pontão dois pescadores que estendem a linha e esperam... esperam... e... pronto.... um esticão.... algo puxou a linha, o pescador enrola rapidamente a linha e, sai saltitando da água um belo peixe... talvez um robalo... o pescador já tem um belo almoço.

Continuo pisando areia embrulhada em espuma e agora observo alguns surfistas que apenas brincam com as pranchas, vão de cá para lá e vice versa, o mar não dá para mais, está muito calmo, eles divertem-se  são felizes.

O sol está muito quente, alguns pequenos grupos de pessoas já aproveitam a praia e já se bronzeiam ao sol de Abril.

A cor do mar está magnifica de um azul quase verde com ligeiros tons de esmeralda, quase cristalino. O sol reflete-se e dá-lhe uma tonalidade prateada... A areia é fina e dourada, tão bela e sedutora... este é o mar que eu amo, é o mar da Ericeira!

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Parque de estacionamento

Sempre que vai à vila estaciona o carro naquele parque, um parque de estacionamento bem no centro, dali, vai-se com facilidade a qualquer ponto da vila, por isso, embora pago, está sempre lotado, não raras são as vezes que estão carros em fila de espera, à espera que alguém saia. Não era o caso naquele dia, havia muitos lugares disponíveis.... porque seria? a resposta não se fez esperar.... ali estavam eles com os coletes verde alface  de bloco  e caneta na mão.

A moça estacionou, por alguns momentos ficou a olhar para eles, ora para um, ora para outro, um mais acima, outro mais abaixo, os dois a escrever e a prender um papelinho no  limpa para brisas de todos os carros que não tinham o papelinho quadrado comprovativo do pagamento e tempo que ali podia permanecer.

Pegou na malinha, sacou de lá a carteira e procurou algumas moedas para ir colocar na máquina... desta vez não podia facilitar... outras vezes havia em que se esquecia da máquina ou não tinha moedas.... tivera sempre sorte... nunca lhe apareceu um bilhetinho no limpa para brisas.

Papelinho na mão, colocou-o no sitio certo, bem visível para que o polícia o visse, não fosse o diabo tecê-las. Entretanto tinha-se aproximado um rapaz que tinha o carro bem perto do agente e verificou que tinha lá o dito papel que retirou e se dirigiu ao agente, trocaram algumas palavras, após o que o rapaz seguiu o seu caminho que se cruzou com o da moça, trazia o dito papelinho na mão, ela perguntou-lhe se o guarda tinha retirado a coima --- não, e olhe que trabalho aqui perto, respondeu ele. - Pois é.... não podemos facilitar, disse ela. Trocaram mais alguma palavras e cada um seguiu o seu caminho.

Descansada, seguiu para tratar os assuntos que ali a levaram, ia pensando enquanto caminhava que foi uma sorte ter chegado ali quando os agentes ali estavam senão era bem provável que quando chegasse ao carro deparasse com a desagradável surpresa de um elegante papelinho que lhe custaria bem caro. 

E não é que ultimamente andava com a mania de facilitar... eles não aparecem aqui, pensava... pensava, mas agora já não pensa, porque após ter visto isto já não se vai fazer de esquecida, não!

Se há dinheiro que ela ache mais mal empregue e lhe custa a pagar são o dinheiro das multas. Raios... deixamos ali uma pipa de massa e não trazemos nada connosco! Digam lá se não é um raio de um dinheiro mesmo mal gasto?

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