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Abrigo das letras

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23
Out16

Domingas #1(conto)

Maria Flor

Como sempre, percorria aquele caminho de terra batida, habitava num pequeno lugarejo com apenas algumas casas pobres como a sua, dirigia-se à aldeia mais próxima para comprar os bens essenciais para a sua sobrevivência, vivia sozinha, os pais tinham partido há muito, tinham-lhe deixado aquele miserável casebre que era o seu teto. Os poucos dinheiros que possuia provinham de uma pensão social e valia-lhe a ajuda dos seus pobres vizinhos que pouco mais tinham que ela. Naquele dia, porém, no seu percurso até à aldeia, alguém vindo num belo e lustroso carro azul, parou e dirigiu-lhe a palavra - a senhora, (nunca ninguém a tinha tratado assim com modos tão delicados), a senhora chama-se Domingas? - muito a medo, porque não há-de dar confiança a desconhecidos, respondeu que sim.

A Domingas trajava uma saia verde escuro que lhe cobria as pernas até abaixo dos joelhos e vestia uma camisola amarela salpicada de tons castanhos, por cima dos ombros um xaile de cor castanha completava o conjunto, nada dada a modas vestia qualquer coisa que a aquecesse e lhe desse uma aparência mais ou menos cuidada. Vivia com o seu tareco, o gato que lhe fazia companhia e com quem conversava com se fosse uma pessoa. 

O desconhecido que se abeirou dela e a tratou com tanta delicadeza, assim ela achou, perguntou-lhe se ela se chamava Domingas e se sempre tinha vivido ali ao que Domingas respondeu afirmativamente, este logo a tranquilizou dizendo que não se assustasse porque vinha a bem.

Domingas habituara-se a viver sem família, os seus pais sempre lhe tinham dito que não havia mais ninguém na família além deles e que quando desaparecessem só ficaria ela, era apenas nisto que acreditava, agora aparecia ali um desconhecido a dizer que era seu primo. Primo?.... Domingas interrogava-se, deveria haver um engano, ela não tinha tios nem primos. O senhor está enganado, eu não tenho primos, está a confundir-me com alguém, alertou.

Prima Domingas, permita-me tratá-la assim, é que eu venho aqui com uma missão incumbida pelos meus pais, seus tios... e permita-me por favor que lhe conte uma pequena mas verdadeira história.

314981_2361670378908_1051437037_n.jpgHá muitos anos o seu pai e o meu eram moços novos, irmãos de sangue e amigos em tudo, viviam aqui com os nossos avós até ao dia em que conheceram uma rapariga numa festa em uma aldeia não muito longe daqui, eles iam muito aos bailes que se faziam ao Domingo pelas muitas aldeias por aí espalhadas. Num desses bailes os dois encararam com aquela beleza de moça que nunca tinham visto por ali, os dois dançaram com ela e se divertiram e os dois sem se aperceberem ficaram presos aos olhos verdes que os enfeitiçou. Na volta para casa embrenhados cada um com os seus pensamentos, pouco falaram o que não era habitual, pois costumavam sempre fazer o caminho de regresso em grande alegria e sempre comentando a noite e as raparigas. Dormiam no mesmo quarto e já deitado o mais novo perguntou ao irmão - gostaste da Amélia não gostaste? apanhado desprevenido o irmão mais velho que se chamava Adelino, respondeu como quem nem está a pensar nisso - ah, não, é uma rapariga como outra qualquer, e não se falou mais no assunto. Jorge, assim se chamava o mais novo viu com esta resposta o caminho aberto para no próximo baile, se Amélia lá estivesse lhe fazer uma declaração de amor, pois tinha ficado caidinho por ela.

Na semana seguinte, fingindo-se esquecidos de Amélia dirigiram-se à mesma aldeia para mais um baile, os dois levavam a mesma idéia em mente, declararem-se a Amélia. Adelino foi o primeiro a dançar com ela  e não perdeu tempo, logo foi dizendo que não mais a esqueceu e que estava verdadeiramente apaixonado, não largando Amélia e não dando qualquer oportunidade a Jorge de se aproximar. Jorge observava o comportamento do seu muito amigo e irmão e sentiu-se traído no mais fundo do deu coração. No regresso a casa Adelino contou a Jorge que estava apaixonado por Amélia e que lhe ia pedir namoro. Jorge felicitou-o e não mais foi o mesmo, andava calado, matava-se a trabalhar e evitava a todo o custo ficar a sós com o irmão. Quando se iam deitar, jorge quase sempre fingia que dormia quando o irmão entrava no quarto. Jorge não acompanhou mais Adelino ao baile daquela aldeia. É claro que Adelino estranhou muito este comportamento do irmão o que este justificava sempre como estava cansado, não lhe apetecia, que fosse sozinho. Um dia Adelino pergunta a Jorge - é por causa de Amélia não é? gostas dela? Jorge responde - Gosto, gosto muito, mas quero que sejas feliz.

 

Ainda não tinha passado muito desde este episódio quando um dia Jorge chega a casa e anuncia que vai emigrar, que já não gosta de estar ali, que quer procurar uma vida melhor noutro país, vai para França e poucas vezes escreve ao irmão e quando escreve são apenas breves palavras.

Nunca mais voltou ao seu país, casou com uma mulher que sempre respeitou mas que nunca amou, teve um filho que sou eu, criou um negócio e uma grande empresa, causou um enorme sofrimento aos seus pais que nunca mais o viram e nunca mais quis saber como estava Adelino e Amélia que se tinham  entretanto casado. No entanto pouco tempo antes de morrer o meu pai chamou-me e contou-me que nesta aldeia possilvelmente ainda viveria algum familiar meu, pediu-me para aqui vir e saber se vivia alguém e em que condições, pois sabia que a aldeia continuava a ser muito pobre, pediu-me que ajudasse esse familiares que possilvelmente aqui se encontrariam. Após algumas informações chego até si prima Domingas e gostaria de ajudá-la como o meu pai me pediu, se aceitar a minha ajuda!

(Esta é uma pequena e simples ficção como outra qualquer, no próximo domingo dou-lhe continuação)

 

 

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