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Abrigo das letras

Abrigo das letras

30
Out16

Domingas #2(conto)

Maria Flor

Domingas era uma mulher pobre porque não possuía mais nada além daquele casebre em que vivia e uma vasta área de terreno fértil em volta, era o único bem que possuía e era a sua vida, sabia ler  e escrever e sempre andara atenta ao que se passava em seu redor, não era uma mulher tôla que nada percebia e que se deixasse enganar facilmente, por isso, atentamente ouviu e analisou o que o dito primo lhe falou. Calmamente lhe perguntou - Caro primo, e como pensa em ajudar-me, porque já percebeu que não sou pessoa com uma vida facilitada, mas alerto-o que à minha maneira, aqui sou feliz e me contento com o que me é permitido ter.

Perante esta pergunta e este "aviso", Jorge sentiu que a sua missão ali estava um pouco comprometida, já que o que ali o trouxera tinha mais um objetivo além da "ajuda" que pretendia oferecer á sua prima, tinha portanto que ser cauteloso nas palavras se queria ser bem sucedido na sua missão.

- Prima Domingas, numa volta que já dei à aldeia, pois tinha curiosidade em ver a casa onde o meu pai nasceu e onde foi tão feliz na sua juventude, fiquei a saber onde vive, noto que é uma casa modesta, que necessita de alguma obras....

Domingas reflectiu nas palavras que acabara de ouvir, sabia que não tinha posses para reparar fosse o que fosse, mas alguma coisa lhe dizia que não confiasses nem um pouco nas palavras mansas daquele desconhecido bem vestido chegado de um lugar qualquer naquele belo carro, dizendo-se seu primo, assim foi dizendo: - sabe, primo, aquela casa que viu é o meu mundo, ali eu tenho as minhas galinhas, o meu cão e o tareco, as minhas couves e árvores de fruta, as sombras no calor do verão e a lareira acesa no inverno, eu sou feliz ali primo..... 

(Continua no próximo domingo)

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24
Out16

Outra vez.....

Maria Flor

Outra vez a ligarem para oferecer cartões, estou farta destes telefonemas.

Ouvi tudo o que a senhora tinha para dizer e no fim disse-lhe:

Concordo com tudo o que disse mas, não muito obrigado, e acrecentei: a senhora deve ter a garganta cansada e seca de tanto ter falado, mas não quero cartões de crédito, não é esse o meu estilo de vida!

(eu com a minha paciência no limite e o meu almoço para fazer).

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23
Out16

Domingas #1(conto)

Maria Flor

Como sempre, percorria aquele caminho de terra batida, habitava num pequeno lugarejo com apenas algumas casas pobres como a sua, dirigia-se à aldeia mais próxima para comprar os bens essenciais para a sua sobrevivência, vivia sozinha, os pais tinham partido há muito, tinham-lhe deixado aquele miserável casebre que era o seu teto. Os poucos dinheiros que possuia provinham de uma pensão social e valia-lhe a ajuda dos seus pobres vizinhos que pouco mais tinham que ela. Naquele dia, porém, no seu percurso até à aldeia, alguém vindo num belo e lustroso carro azul, parou e dirigiu-lhe a palavra - a senhora, (nunca ninguém a tinha tratado assim com modos tão delicados), a senhora chama-se Domingas? - muito a medo, porque não há-de dar confiança a desconhecidos, respondeu que sim.

A Domingas trajava uma saia verde escuro que lhe cobria as pernas até abaixo dos joelhos e vestia uma camisola amarela salpicada de tons castanhos, por cima dos ombros um xaile de cor castanha completava o conjunto, nada dada a modas vestia qualquer coisa que a aquecesse e lhe desse uma aparência mais ou menos cuidada. Vivia com o seu tareco, o gato que lhe fazia companhia e com quem conversava com se fosse uma pessoa. 

O desconhecido que se abeirou dela e a tratou com tanta delicadeza, assim ela achou, perguntou-lhe se ela se chamava Domingas e se sempre tinha vivido ali ao que Domingas respondeu afirmativamente, este logo a tranquilizou dizendo que não se assustasse porque vinha a bem.

Domingas habituara-se a viver sem família, os seus pais sempre lhe tinham dito que não havia mais ninguém na família além deles e que quando desaparecessem só ficaria ela, era apenas nisto que acreditava, agora aparecia ali um desconhecido a dizer que era seu primo. Primo?.... Domingas interrogava-se, deveria haver um engano, ela não tinha tios nem primos. O senhor está enganado, eu não tenho primos, está a confundir-me com alguém, alertou.

Prima Domingas, permita-me tratá-la assim, é que eu venho aqui com uma missão incumbida pelos meus pais, seus tios... e permita-me por favor que lhe conte uma pequena mas verdadeira história.

314981_2361670378908_1051437037_n.jpgHá muitos anos o seu pai e o meu eram moços novos, irmãos de sangue e amigos em tudo, viviam aqui com os nossos avós até ao dia em que conheceram uma rapariga numa festa em uma aldeia não muito longe daqui, eles iam muito aos bailes que se faziam ao Domingo pelas muitas aldeias por aí espalhadas. Num desses bailes os dois encararam com aquela beleza de moça que nunca tinham visto por ali, os dois dançaram com ela e se divertiram e os dois sem se aperceberem ficaram presos aos olhos verdes que os enfeitiçou. Na volta para casa embrenhados cada um com os seus pensamentos, pouco falaram o que não era habitual, pois costumavam sempre fazer o caminho de regresso em grande alegria e sempre comentando a noite e as raparigas. Dormiam no mesmo quarto e já deitado o mais novo perguntou ao irmão - gostaste da Amélia não gostaste? apanhado desprevenido o irmão mais velho que se chamava Adelino, respondeu como quem nem está a pensar nisso - ah, não, é uma rapariga como outra qualquer, e não se falou mais no assunto. Jorge, assim se chamava o mais novo viu com esta resposta o caminho aberto para no próximo baile, se Amélia lá estivesse lhe fazer uma declaração de amor, pois tinha ficado caidinho por ela.

Na semana seguinte, fingindo-se esquecidos de Amélia dirigiram-se à mesma aldeia para mais um baile, os dois levavam a mesma idéia em mente, declararem-se a Amélia. Adelino foi o primeiro a dançar com ela  e não perdeu tempo, logo foi dizendo que não mais a esqueceu e que estava verdadeiramente apaixonado, não largando Amélia e não dando qualquer oportunidade a Jorge de se aproximar. Jorge observava o comportamento do seu muito amigo e irmão e sentiu-se traído no mais fundo do deu coração. No regresso a casa Adelino contou a Jorge que estava apaixonado por Amélia e que lhe ia pedir namoro. Jorge felicitou-o e não mais foi o mesmo, andava calado, matava-se a trabalhar e evitava a todo o custo ficar a sós com o irmão. Quando se iam deitar, jorge quase sempre fingia que dormia quando o irmão entrava no quarto. Jorge não acompanhou mais Adelino ao baile daquela aldeia. É claro que Adelino estranhou muito este comportamento do irmão o que este justificava sempre como estava cansado, não lhe apetecia, que fosse sozinho. Um dia Adelino pergunta a Jorge - é por causa de Amélia não é? gostas dela? Jorge responde - Gosto, gosto muito, mas quero que sejas feliz.

 

Ainda não tinha passado muito desde este episódio quando um dia Jorge chega a casa e anuncia que vai emigrar, que já não gosta de estar ali, que quer procurar uma vida melhor noutro país, vai para França e poucas vezes escreve ao irmão e quando escreve são apenas breves palavras.

Nunca mais voltou ao seu país, casou com uma mulher que sempre respeitou mas que nunca amou, teve um filho que sou eu, criou um negócio e uma grande empresa, causou um enorme sofrimento aos seus pais que nunca mais o viram e nunca mais quis saber como estava Adelino e Amélia que se tinham  entretanto casado. No entanto pouco tempo antes de morrer o meu pai chamou-me e contou-me que nesta aldeia possilvelmente ainda viveria algum familiar meu, pediu-me para aqui vir e saber se vivia alguém e em que condições, pois sabia que a aldeia continuava a ser muito pobre, pediu-me que ajudasse esse familiares que possilvelmente aqui se encontrariam. Após algumas informações chego até si prima Domingas e gostaria de ajudá-la como o meu pai me pediu, se aceitar a minha ajuda!

(Esta é uma pequena e simples ficção como outra qualquer, no próximo domingo dou-lhe continuação)

 

 

22
Out16

Guardador de rebanhos

Maria Flor

Sou um guardador de rebanhos


O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei da verdade e sou feliz.

(Alberto Caeiro)

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20
Out16

As vacinas da gripe

Maria Flor

A mãe perguntou: Filha quando me podes levar ao centro de saúde para levar a vacina da gripe?

- Ora mãe, combinamos já um dia para a próxima semana!

Na semana seguinte o telefone toca e a mãe pergunta - filha, podes levar também a senhora X mais a Senhora Y?

Ok, estejam preparadas às dez horas que passo por aí.

No dia combinado, parecendo a carrinha do "lar da terceira idade" lá apareceu no centro de saúde com as três senhoras para a dita vacina. Tudo se despachou rápidamente, as senhoras estavam contentes e de regresso cada uma foi preparar o seu "almocinho" que já tinham deixado mais ou menos preparado, porque nestas coisa de ir ao centro de saúde, nunca se sabe o tempo que se demora e..... mulheres precavidas e cumpridoras de horários, mesmo que seja para almoçar, ´"é melhor prevenir que remediar"!

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20
Out16

Vasculhar a bolsa de uma mulher

Maria Flor

Procurar alguma coisa na bolsa de uma mulher é quase como procurar "agulha num "palheiro". Sejam elas pequenas ou grandes o tormento é sempre o mesmo, a mão procura, procura, anda às cegas lá dentro e nunca mais encontra a bendita chave do carro. Por vezes é preciso despejar tudo para que a dita apareça.

A solução devia passar por usar um detector de metais na ponta dos dedos, antes de estes entrarem às cegas no interior da mala! Se calhar, resultava!

 

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19
Out16

A caixa do supermercado

Maria Flor

Passou por mim de relance, pareceu-me ver traços familiares, olhei, só a vi de costas. Prestei atenção para ver melhor e de frente, sim, não havia dúvidas, era ela. Ia tirando coisas da prateleira e metendo no carrinho. De vez em quando encontro pessoas famosas nas grandes superfícies e também em algumas lojas mais pequenas. Hoje, porém deparei-me com a "Alzira" da série "Beirais" uma personagem que muito apreciei enquanto vi a série, engraçada nas falas, vistosa na aparência.

Quando me dirigi à caixa, lá estava ela, coincidiu me colocar precisamente atrás dela para pagamento das compras, a mesma voz que ouvia na televisão surgia ali em tempo real. 

Pensei em aproveitar a oportunidade para lhe dizer o quanto apreciava o seu trabalho, mas encolhi-me mais uma vez na minha concha como o caracol se encolhe na dele e nem dei um passo e muito menos uma palavra.

Porque me custa tanto sair da minha zona de conforto, porque não me atrevo a fazer ou dizer alguma coisa de diferente? Era tão simples!

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18
Out16

A Lua

Maria Flor

Num sopro brusco apagou a vela que deixou um aroma a baunilha atrás de si. Acabara de se preparar, o cabelo estava impecável, a roupa caía que nem uma luva, não era quente nem muito fresca, olhou as mãos, ficou contente com o que viu, as suas unhas estavam pintadas de um vermelho paixão, calçara uns sapatos de salto e perfumara-se com o seu perfume favorito, olhou o espelho e disse para si mesma - estou linda, não tenho uma cara bonita mas estou linda. Sempre achara que o seu rosto tinha pouca graça, embora as pessoas dissessem o contrário. Naquela hora olhara o espelho e via que estava linda e elegante.

Já não era muito nova, combinara aquele encontro porque ele insistira, porque ele queria estar um pouco com ela.

Num sopro brusco apagou a vela e cruzou a porta da entrada, os seus pulmões absorveram o ar húmido da rua, a noite ainda não tinha caído totalmente, olhou em frente, ficou fascinada, a Lua, grande e esplendorosa, resplandecia como sendo a coisa mais bela alguma vez vista, perdeu-se a olhar para ela, aguardou que a companhia do seu jantar chegasse.

Já no carro, não tirava o olhar da lua, para qualquer lado que o carro se dirigisse, ela estava sempre ali, à frente, sempre tão perto, quase lhe conseguia tocar, era só estender mais um pouco a mão, mais um pouco.... sempre mais um pouco....

Absorta na lua, esquecera-se  até que estava acompanhada, apenas contemplava a lua que a hipnotizava com a sua luz brilhante. Ele perguntou-lhe: estas aqui?

Estupefacta, acordou, desculpou-se como pôde e falou-lhe da Lua de como se sentia bem a contemplá-la. Ele parou o carro e ambos contemplaram a lua. O jantar esperava, não era todos os dias que a Lua podia ser observada com tanta beleza! 

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17
Out16

As cartas que esperam

Maria Flor

Um dia a senhora X falou-me das cartas, não me revelou o seu conteúdo, até porque, diz ela que já não se lembra bem das palavras, mas diz que foi uma época muito bonita da sua vida. Falou com nostalgia e saudade da época em que as recebeu e escreveu.

As cartas que há tantos anos guardava, continham palavras que o tempo se encarregara de remeter para um patamar que ficava retido numa outra circunstãncia. Por vezes, a tentação de relê-las assaltava-a e ficava paralizada defronte do baú onde elas repousavam, sobrepostas umas sobre as outras e unidas por uma fita azul que as não deixava separarem-se. As palavras que ficaram guardadas no tempo e que são uma memória fisica de alguém especial que um dia pegou na caneta e escreveu o que o coração ditava. Espelhou sentimentos, alegrias e tristezas vividas. São assim as cartas.

Dentro do baú as cartas esperavam pacientemente que chegasse o dia em que a coragem atingisse o nível certo e que fossem novamente lidas, mas esse dia tardava em chegar, a senhora X tinha receio de o fazer, tinha receio de que as emoçoes, as saudades fossem tantas que não coubessem dentro do seu coração.

Assim, as cartas iriam continuar no mesmo lugar, na mesma posição, guardando os seus segredos perpetuando os momentos vividos!

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14
Out16

Trilhando pelos blogues com "o meu poema" em Follow friday

Maria Flor

Fixei o meu olhar neste trilho, e aproveito que hoje é dia de Follow friday para recomendar.

Tinha uma mochila a cobrir-me as costas e uma vara de madeira robusta a acompanhar-me as passadas. Um mapa entrelaçado nos dedos e uma adrenalina aprazível a despontar pelo ventre.  Era o mundo em vista por descobrir. O realizar do maior de todos os projetos: conhecer-me.

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