Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Abrigo das letras

Abrigo das letras

30
Jul12

Manhãs e tardes de praia

Maria Flor

 

São chapéus de sol ás riscas, ás flores ou simplesmente de cor lisa, abertos, protegendo do sol os muitos veraneantes que aproveitam uma tarde quente de Julho, nesta praia deliciosa de água calma e transparente; As muitas toalhas coloridas que se estendem aqui e ali no areal dourado, marcam um pequeno território que passa a "pertencer" por algumas horas a alguém. Pessoas que se movimentam em todas as direções brincando e vigiando as suas crianças; as crianças são traquinas e inocentes não conhecem os perigos que espreitam em cada esquina, vigiar todos os momentos delas é "lei". Há quem durma uma sesta, há quem namore, há muitos que conversam e outros que lêem um livro ou uma revista. É a senhora dos bolos que apregoa a "bola de berlim" e o homem dos gelados  "olhó geladinho". O cheirinho a maresia, a brisa que beija o corpo moreno já bronzeado pelas manhãs e tardes, exposto ao sol, o caminhar de pés descalços na linha da água, sentindo as cócegas provocadas pelos grãos de areia ... É Verão

26
Jul12

José Saramago

Maria Flor

 

 

Imponente edificio setecentista, o Palácio nacional de Mafra mandado construir por D. João V. Diz-se que para cumprimento de uma promessa se a rainha lhe desse um filho varão. A idéia era construir um convento de franciscanos na vila de Mafra, originalmente a idéia não previa um investimento tão grandioso como o que viria a ser feito. A obra foi encomendada por D. João V e consistia num monumento religioso para agradecer a chegada do seu primogénito. A primeira pedra foi lançada em 1717, mas, à medida que chegavam aos cofres reais mais e mais riquezas do Brasil, o projecto foi redesenhado, acrescentado, e não se olhou a despesas para transformar o pequeno monumento naquilo que é hoje: 40 mil metros quadrados de construção com uma fachada de 200 metros de comprimento e uma altura que atinge os 68 metros nas duas torres; mais de cinco mil portas e cerca de 2500 janelas que escondem numerosas obras artísticas encomendadas pelo monarca à França, Flandres (de onde chegaram os dois carrilhões de 92 sinos, cujo peso se estima em mais de 200 toneladas) ou Itália; e uma biblioteca ricamente ornamentada com um acervo de cerca de 35 mil obras.

José Saramago (Prémio Nobel da literatura) cria em livro "Memorial do Convento", uma história ao redor da construção do convento, criando entre outras, duas personagens ricamente descritas, que dão vida ao livro e o tornam numa leitura deveras interessante a ponto de fundir romance e realidade numa só dimensão.

Blimunda de Jesus é uma mulher do povo, a quem o Padre Bartolomeu, batiza de “Sete-Luas”; Possui o dom de, em jejum, ver o interior das pessoas e das coisas, o que lhe permite recolher as duas mil “vontades” indispensável para o funcionamento da passarola.

Baltasar Mateus, de alcunha Sete-Sóis foi um soldado da guerra da sucessão de Espanha durante quatro anos; Foi dispensado do exército por ter perdido a mão esquerda em combate.

Blimunda e Baltazar são o casal que, simbolicamente, guardará os segredos dos infelizes, dos humilhados, dos condenados, enfim, dos oprimidos.

 

"Memorial do Convento" recomenda-se para as leituras de Verão, aproveitando as férias. É uma leitura apaixonante para quem gosta de romance histórico.

22
Jul12

Verão

Maria Flor

Ouvem-se as sirenes dos bombeiros (Soldados da Paz)! Está calor, está vento, estes homens não têm descanso. Verão é tempo de praia, de  convivio entre amigos e familiares, de comer gelados, caracóis, piqueniques e sardinhadas. Uma fogueira mal apagada, feita no local errado é o suficiente para colocar em perigo os bens de muitas pessoas. São pomares, vinhas, pinhais, casas, floresta e tudo o mais que o fogo desenfreado encontra pela frente, tudo arde num ápice deixando um rasto de desalento e tristeza para quem perde, muitas vezes o trabalho de uma vida inteira. Sejamos civilizados e responsáveis nestes tempos em que saber viver é tão dificil e exige de cada um, muita criatividade e capacidade para enfrentar a vida com dignidade.

21
Jul12

O velho casarão

Maria Flor

Por detrás das velhas paredes contam-se histórias que o tempo vai extinguindo, de meninos que brincavam com os patos e os porquinhos da india, de casais de namorados que juraram amor eterno, de mulheres que cozinharam,lavaram a roupa, e amaram os seus homens, de homens que exploraram a terra, jogaram bilhar e amaram as suas mulheres ... histórias repetidas geração após geração, sempre vividas como sendo únicas. O velho casarão de paredes grossas e húmidas, de janelas com vidros partidos e cortinas velhas, de paredes sem tinta, ergue-se desafiando quem para ele olha, como que dizendo " estou velho, estou aqui, fui feito de material sólido, aqui, assim vou continuar até que tu te lembres de me lavar o rosto, renovar as minhas artérias, dar calor ao meu coração, e fazeres palpitar vida no meu corpo.

15
Jul12

Carisma da loja tradicional

Maria Flor

 

 

 

 

Este carisma que se vai perdendo pouco a pouco, um bocadinho por todo o lado. O talho onde a senhora de óculos com lentes grossas e espessa armação costumava ir comprar os bifes ou franguito do campo e, a quem o dono do talho já conhecia os seus gostos e as suas necessidades.... Algum espanto se desenha no seu rosto queimado pelo sol e marcado pelo tempo, algumas rugas que teimam em se aprofundar...

Quando entra depara com um ambiente que não lhe é familiar, pensa que se enganou na porta, sai e volta a entrar e pensa "sim é aqui, não me enganei, ainda não estou tonta, isto é que mudou". Estão ali uns funcionários de camiseta preta e avental de cor avermelhada ao invés do antigo dono do talho que usava uma bata branca por vezes salpicada de sangue, mas conhecia e tratava todos os seus clientes como de amigos se tratassem. Funcionários simpáticos e desembaraçados sem dúvida, quantidades de carne exposta, arrumada e separada convenientemente por divisórias de plástico duro e opaco, sim, tudo muito bem, até bem de mais porque, o carisma tradicional não está presente e, em vez disso, está tudo com uma apresentação mais industrializada o que leva o consumidor a encarar tudo por igual, seja aqui como no hipermercado, embora este espaço continue a ser um talho inserido num mercado municipal.

12
Jul12

Escola Primária

Maria Flor

Arquitetura do tempo de "Salazar", espalhado por todo o nosso Portugal,este tipo de edificio serviu para dar a instrução primária a várias gerações. Vemos agora, muitos deles um pouco como este, com os portões cerrados, alguns vidros partidos e as ervas a crescer no espaço onde antes pairava a alegria das crianças que brincavam aos tradicionais jogos de rua como: o berlinde, salto à corda, macaca, cabra-cega, apanhada, lencinho que vai na mão, caracol e tantos outros que a minha lembrança agora me atraiçoa...

Estas estabelecimentos de ensino foram substituídos por edificios modernos e maiores, locais onde se concentram todas as crianças que outrora frequentavam as escolas das aldeias, deixando estas mais vazias de pessoas e de alegria, já que agora todas as crianças vão para a escola nos automóveis dos pais ou avós ou então em carrinhas fretadas para o efeito. Noutros tempos todas as crianças iam mais ou menos em grupo a pé para a escola mesmo que a mesma se situasse a alguns quilómetros de distância, enchendo de vida as ruas, ruelas e caminhos. As aldeias palpitavam de vida.  

Quem como eu frequentou este tipo de estabecimento olha agora para ele com alguma nostalgia, recordando tempos que não estando muito longínquos na memória, parecem afinal tão distantes do tempo e do espaço.

Alguns destes antigos estabelecimentos de ensino ganharam outra vida pois foram aproveitados para outras actividades em prol das populações locais. Pelo o muito que contribuiram para a educação e aprendizagem de tantas gerações merecem ser dignificados no mínimo com uma suficiente apresentação exterior.
02
Jul12

À espera!

Maria Flor

Ali estava ele caído no chão, abandonado, capa em desalinho, páginas impreguenadas de pó, à espera... à espera de alguém que olhasse para ele, se compadecesse do seu infortúnio. Há quantas horas, quantos dias, semanas talvez que ali estava naquela posição incómoda, esperando, esperando...Eis que finalmente ela chega, olha para ele e de imediato o apanha, o ajeita e o limpa, emprestando-lhe outro aspecto. Longe de parecer novo mas ficou decente. Olhou para a capa (Dez dias que abalaram o mundo) de  John Reed.  "Dez dias que abalaram o mundo joga uma luz sobre muita coisa que aconteceu durante a Revolução Russa. O processo foi muito mais complexo e doloroso do que se costuma imaginar e foi sim um movimento das massas, e não apenas de um partido liderado por intelectuais"